sexta-feira, 20 de junho de 2008

A barriga da gente

Um grupo de jovens de uma escola estado-unidense fez um pacto de gravidez. Ninguém sabe bem quando, onde, como nem porquê, mas o que é certo é que há 17 grávidas. Ao que parece, os pais foram escolhidos mais ou menos ao acaso e a fava até saiu a um sem-abrigo.
Fiquei completamente fascinado com esta estória. É para tentar decifrar um acontecimento destes que vale a pena ser um animal racional.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

A Ilha

Há poucos dias fiz a minha primeira viagem de avião. Há poucos dias conheci os Açores, apresentados pela Terceira. Ao mesmo número de dias perdi alguém de vista. Para sempre.

Estava tensa e ansiosa. Tive que gerir o facto de não ter escolhido o dia, o destino e a companhia da primeira viagem de avião. O momento que deveria ter sido programado, pensado e repensado, acompanhado de uma mão e de uns olhos familiares foi-me lançado quase de véspera. De repente, tinha ao meu lado duas pessoas que fazem dos lugares de avião a sua casa. No momento da descolagem, a música ambiente do avião era a one hit song de Shawn Mullins, Lullaby. O refrão era claro: “everything is gonna be alright, just rockabye”… E eu acreditei na letra. Tinha o Sol em cada lado, o Expresso ao colo e o Shawn Mullins no ar. De repente, estava a levitar. Já tinha imaginado vezes sem conta como iria descrever a sensação da descolagem: levitação é a minha eleita. Da janela via a minha adorada Lisboa minguando e pensava como sou pequena e indefesa. Um grão de pó no ar. E, por cima das nuvens, senti um respeito imenso por aquela máquina, asas, turbinas, motores e tripulação. Senti um respeito imenso pela morte, a mesma que, nesse dia, sem saber, levaria alguém que deveria estar a aproveitar as suas merecidas férias com sabor a mojitos à beira-mar.

A Terceira. Linda de morrer. Mais uma vez, o pensamento da morte e da vida. Inevitável numa ilha que nasceu da morte vulcânica, que parece intocada pela mão do Homem. Um paraíso no meio de um oceano. Verde do mais verde, azul do mais puro. A acelerada condução do guia incansável que nos mostrou tudo quanto possível em dois dias, por curvas e contra-curvas, subidas e descidas sinuosas, faziam-me querer conhecer mais e mais. Ali estava eu, no meio de um grupo de seres de idades e vivências tão diferentes, tão ricas. O prazer do riso, das conversas e da partilha testemunhados pelas mantas de retalhos. Três chamadas não atendidas. Uma mensagem de voz de alguém querido que está longe. Uma preocupação às três da madrugada da Terceira, quatro de Lisboa. Um pedido de devolução de chamada quando propício o momento, um timbre de voz triste, um anúncio de má notícia.

Uma noite depois, a chamada, nos poucos minutos em que me encontrei só. A notícia recebida no meio das hortênsias e do azul, sempre o azul, no horizonte dos meus olhos húmidos. Como gerir uma informação destas quando se está insulada do resto do mundo e, ao mesmo tempo, absorvida do propósito e das caras que me levaram aos Açores… Respirei fundo e pensei que só podia racionalizar a informação recebida na segunda-feira, de regresso a Lisboa e à realidade. Pelo meio, as inevitáveis lágrimas, a partilha. Sempre. Constante. A troca de confidências, de cartões de contacto, de promessas de regresso e de projectos. Flashes daquela pessoa com um sorriso lindíssimo e aberto. Os olhos. Azuis. O tapete com a bagagem que nunca mais chegava, a boleia à espera, o café nas escadas, a gargalhada. Mais dois flashes que vieram e foram. O regresso. Sacos no chão. Telefonema de parabéns à JP, o conforto da voz amiga, o não contar a notícia sobre a pessoa que não conhece. O querer adiar a constatação da realidade. A mensagem escrita de alguém que também precisa de fazer o luto. O recordar do azul profundo dos olhos curiosos que me disseram até breve na partida da ilha comum no último dia do emprego que nos apresentou.

A J. morreu numa ilha longe da Terceira. No mesmo dia que levitava no ar e pensava na vida e na morte, a J. morria numa estrada espanhola. Tinha 26 anos e só queria ir de férias para descansar do trabalho incessante e beber mojitos à beira-mar. Por mais cliché que pareça, lidar com a perda de alguém tão novo faz-me querer agarrar a vida o mais que possa. Faz-me querer dizer aos meus amigos e família o quanto gosto deles. Faz-me dizer mais disparates só por dizer e para poder rir. Faz-me querer apaixonar pelo rapaz que conheci há poucos dias. A J. só tinha 26 anos. Não é justo.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

There’s nothing wrong with the blueberry pie



Why do you keep them? You should just throw them out.
No. No, I couldn't do that.
Why not?
If I threw these keys away then those doors would be closed forever and that shouldn't be up to me to decide, should it?
I guess I'm just looking for a reason.
From my observations, sometimes it's better off not knowing, and other times there's no reason to be found.
Everything has a reason.
Hmm. It's like these pies and cakes. At the end of every night, the cheesecake and the apple pie are always completely gone. The peach cobbler and the chocolate mousse cake are nearly finished... but there's always a whole blueberry pie left untouched.
So what's wrong with the blueberry pie?
There's nothing wrong with the blueberry pie. Just... people make other choices. You can't blame the blueberry pie, just... no one wants it.
Wait! I want a piece.

Nem tanto ao leite nem tanto ao vinho

"Se os portugueses sentirem que Manuela Ferreira Leite tem tanto desejo de liderar a oposição como Amy Winehouse teve de subir ao palco do Rock in Rio, então ela não irá longe. Manuela Ferreira Leite ganhou. Está de parabéns. Se ela mostrasse, já não digo um sorriso, que seria muita loucura, mas um mínimo de contentamento, a honra não lhe caía na lama e eu dormiria bastante mais descansado".

João Miguel Tavares, DN, 03.06.08

quarta-feira, 28 de maio de 2008

AR de graça ®

(Pequena nota introdutória: depois do sucesso da análise aos 10 Mandamentos de Maria Duarte Bello, instituo o AR de graça®, um apontamento de periodicidade incerta que pautará pela análise de preciosidades encontradas nos media. O conteúdo não deverá ser levado muito a sério).

A Única (a julgar pela minha recente actividade blogueira, parece que não leio mais nada. Não parece, é mesmo verdade. Para além desta, e como o nome indica, não existem mais publicações) desta semana recolheu um conjunto de frases de figuras públicas que é um verdadeiro mimo e ao qual não podia deixar de lançar a minha análise. É curioso como todas as frases se relacionam emitindo, no fundo, mensagens subliminares que incitam ao consumo de marijuana.

“Sempre usei droga para abrir minha percepção. Quando tenho uma dúvida, uso marijuana como terapia. E aí aflora, porque a resposta está dentro de mim”.
Ney Matogrosso. Cantor Brasileiro.


Ora aqui está uma frase inteligente para começar. Eu cá quando tenho dúvidas utilizo a net, faço uso do poder de interrogação junto de outrem ou folheio um dicionário. Nunca tinha visto a marijuana como uma alternativa a estes meios de aprendizagem. Vendo bem as coisas, a marijuana é natural e dispensa o consumo de energia, de voz ou papel. Grande Ney! Logo vi que o teu apelido tinha que ter conotação duvidosa. Não me arranjas um pezinho de erva do teu mato? Vá lá, tens tantos! Até aflora!

“Gosto muito que nos meus canteiros não haja ervas daninhas”.
Angela Merkel. Chanceller alemã.


Pronto, se calhar é porque nunca viu o mato do Ney. Oh Angelita, vê lá é se as ervas daninhas que andas a jogar fora não serão folhinhas de marijuana.

“Uma loira é como uma cerveja, sabe sempre melhor”.
Lara Carmo. Ex-concorrente do Big Brother.


Humm, então tu deves ser bem insonsa, tal é a autenticidade do pigmento amarelo que abunda nessa cabecinha de levedura. Mas, em caso de dúvida, meus senhores, nada como recorrer ao pezinho de marijuana para perceber se a pequena é loira ou morena.

“Sem saltos altos não consigo pensar”.
Victoria Beckam. Ser de iluminada sapiência e inigualável discernimento (vá, isto sou eu a exagerar. A revista designa-a como Ex-Spice Girl. Nem é muito diferente do que escrevi).


Eu pensava que a Victoria Beckam calçava saltos nos eventos sociais, nas lides domésticas, nos desfiles pela via pública… A julgar pelas intervenções de que é conhecida, ninguém diria que a esposa do Becks não anda a usar alturinhas nos pés. Mas lá está, o segredo da afloração de pensamento não está no salto Victoria! Está na marijuana.

“Cindy Lauper vai andar por cá muito tempo. Madonna estará fora da indústria daqui a seis meses”.
Jay Cocks no ano de 1985, então editor da Billboard.


Jay, as tuas previsões são tão exactas como a refinada ciência do oculto praticada por essa linda pomba branca de nome Linda Reis. Da Madonna lembro-me de um videoclip em que ela aparece com o cabelo tingido de várias cores. Uma maluca, essa miúda! Desapareceu num ápice. Já a Cindy, é vê-la aí num grande regabofe com o Timberlake enquanto cantarolam que só têm quatro minutos para salvar o mundo.

Quatro minutos! Já desperdiçaste três com este post.

Vai uma passa?

terça-feira, 27 de maio de 2008

MR, avô da AR

Uma das últimas edições da Única publicou uma peça sobre “seis histórias das heranças íntimas de famílias mediáticas: um Prémio Nobel (José Saramago), um militar entre o herói e o vilão (Otelo Saraiva de Carvalho), o médico que reduziu a mortalidade infantil nacional (Albino Aroso), um empresário de sucesso (Alexandre Soares dos Santos), o homem que mais leis fez em Portugal (António Almeida Santos), um Prémio Pessoa (João Bénard da Costa) e, sobretudo, os seus meninos do coração”. Com a legitimidade de uma neta desconhecida, traço neste post a história de um bon vivant (MR) que tem quatro meninos do coração.

A minha família não é mediática. O meu avô não escreve livros, não é herói militar, não trata da saúde das crianças, não tem empresas, não redige leis e não faz filmes. Do alto dos seus 75 anos, o meu avô vive a vida. Ao máximo.

“Então avô, 65 anos?”, perguntava. “Não! Que ideia! 56!”. Durante anos, a piada foi sempre esta. A 19 de Abril de todos os anos, o MR respondia o inverso da idade completada num dia, dizia, igual a todos os outros: cheio.

Não me lembro do meu avô paterno. Faleceu quando tinha pouco mais de um ano de vida. O meu avô MR foi, e é, a figura masculina ancestral da minha família. Aos domingos, ainda criança, o meu passatempo favorito era remexer nas caixas de fotografias que a minha mãe guarda no móvel da sala. As imagens levavam-me a um país que (ainda) não conheço, de areias desérticas, camelos e labirínticas medinas. Nascido em Queluz, no seio de uma família pobre, o MR cedo partiu, com os tios, para o continente africano.

Marrocos recebeu-o e lá ganhou a paixão dos motores, dos óleos e dos aceleradores dos automóveis cujo arranjo lhe deram uma vida estável. As fotos que a minha mãe guarda mostram um MR destemido que se debruçava em penhascos na zona de Fez, acelerava em motas nas ruas de Casablanca (o que lhe provocou um coma de algumas semanas) e organizava grandes almoçaradas com amigos e família. Bom vinho incluído.

Depois de Marrocos, o regresso a Portugal. Na bagagem, o ofício dos carros, uma mulher doente, dois filhos quase adultos e os poucos pertences que decidiram fazer passar na alfândega tão bem conhecida das férias de Verão rumo ao Algarve.

A minha avó materna faleceu pouco depois, sem conhecer os quatro netos. O MR fez o luto com a naturalidade de quem sabe que a vida consegue ser rude e imprevisível como a arte mecânica dos automóveis. Mulheres, lindas, novas, velhas, magras, gordas. O MR teve muitas.

Do motor passou para o volante. Durante anos, foi motorista do embaixador do Zaire. Entre uma e outra ida à papelaria da Fontes Pereira de Melo, conheceu a companheira, quase 20 anos mais nova, com quem vive há mais de 15, entre algumas zangas, dois casamentos e um divórcio. Todos os processos com a mesma pessoa. De pele muito branca e olho azul, são essas cores tranquilas que amparam o colérico MR nas suas crises de engenho tecnológico. Um dos seus hobbies é fazer experiências com leitores, TV’s e outros equipamentos que vai adquirindo através de suaves prestações no Jumbo de Alfragide.

As idas à casa do meu avô, na Reboleira, eram verdadeiros happenings. O meu avô era sinónimo de travessia do Tejo, com direito a autocarro amarelinho. Era sinónimo de sotaque francês carregado, herança da vivência cosmopolita de Casablanca, de teimosia, cantarolices, histórias surreais e uma energia imensa.

O MR tem diabetes e colesterol elevado. É hipocondríaco. Sabe o nome de todos os medicamentos e acha que tem todas as doenças. O seu maior divertimento é vencer as maleitas ou, pelo menos, contorná-las, recorrendo ao medicamento que entende tomar, ainda que contra indicação do médico de família. O MR tem um farmacêutico amigo que lhe “facilita” o acesso ao último grito da boticária.

Pela primeira vez, neste aniversário, o meu avô disse-me, manifestando algum cansaço, que fazia 75 anos e não a idade inversa. A verdade é que o MR já leva qualquer coisa como 27.375 dias de vida cheia.

Num só homem, a riqueza de muitos livros, as proezas de um herói real, o domínio da saúde, a gestão da empresa familiar e as muitas leis que insiste em desobedecer.

Que o cansaço não te vença avô.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Antestreia adiada

Adoro os inícios dos textos.
Sobretudo de escrevê-los.
Ainda hoje, quase nove da noite, numa das mais de milhentas viagens de comboio na linha de Cascais, rumo a Lisboa, num daqueles regressos a casa característicos de uma segunda-feira, achei as entradas para dois artigos que esperam ser escritos. Diz um grande amigo, H., quando os lê: “Vê-se mesmo que foste tu que os escreveste!” E eu rio-me. Dentro e fora de mim. Sabe, quem me conhece, que não gosto de ir directa ao assunto. Aliás, floreios sempre foram a minha especialidade. Contornar o assunto. Sem “nãos”. E, vejo-me agora na iminência de ter que descobrir um prelúdio convincente para o meu primeiro post. Uma gestação que leva quase nove meses, o mesmo tempo que tem este blog. Um parto difícil, diriam. Eu também. E acrescentaria: sentido.
Lembro-me das discussões que tivemos para escolher o nome desta página colectivamente pessoal. E recordo-me das dezenas de ideias que surgiram para o tema do meu primeiro post. Só que, na primeira vez que tentei escrever alguma coisa – e foi apenas no dia 15 de Março deste ano –, fui interrompida pela ventania que se fazia sentir nas muralhas do Castelo de S. Jorge, numa altura em que me tinha afluído a inspiração. E as tantas palavras que havia escrevinhado na agenda de 2007 que, por aqueles dias continuava perdida na minha mala, foram remetidas ao esquecimento. Até que, há alguns dias atrás, as encontrei. Foram directamente para o caixote do lixo. E é por isso que não gosto de manter um diário da minha vida. Das poucas vezes que o tentei, fui incapaz de reler o que havia imprimido a custo e, por vezes, com cuspo.
Numa conversa recente com a M., uma colega de trabalho, confessava-lhe a displicência que nutro pelos escritos diários. Gosto de escrever, adoro descortinar inícios, anseio pelos anos que ainda me esperam de páginas em branco à espera de serem redigidas numa qualquer revista ou jornal. Contudo, chegada a casa, apetece-me fazer tudo menos alimentar essa vontade das letras. Não há necessidade, já dizia o outro.
É difícil parir.
Mas, esta noite, enquanto lia os posts dos meus colegas, senti uma vontade incontrolável de deitar as mãos ao teclado.
Na senda do melhor início.
O meu primeiro início.
A inspiração há-de chegar…

Acho que vou esperar que saia a ferros, mesmo que deformado. Ainda não vai ser hoje.