Chegámos à porta do Lux e atendeu-nos (ia escrever “recebeu-nos”, mas não seria correcto) uma mulher nórdica, trinta e muitos, loura e bonita, dentro de um elegante vestido preto que contrastava harmoniosamente com a cor dos cabelos e da pele.
“Quantos são?”, perguntou numa língua parecida com português, enquanto nos olhava de alto a baixo. Um olhar poderoso, do alto do forte desnível estrategicamente criado para que ela e os dois gorilas lavadinhos que a ladeavam se mantivessem 20 ou 30 centímetros acima dos clientes.
A nossa resposta – “Sete.” – fê-la balbuciar qualquer coisa como “Têm o nome na guestlist?”
Depois, com um ar constristado: “Se não, têm de pagar consumo mínimo de 240 euros.”
Enquanto lhe atirava um “obrigado” e virava as costas, procurei uma razão.
Antes e depois de termos tentado entrar, enquanto esperávamos uns pelos outros, tive oportunidade de ver várias pessoas submeterem-se ao crivo da porteira (que deve preferir um nome pomposo qualquer, estilo “RP”) e cheguei a várias conclusões.
Não fomos “barrados” por sermos demasiados – entraram bandos maiores. Nem por sermos demasiados homens – éramos quatro para três e entraram grupos mais desequilibrados. A roupa também não pode ter sido o motivo – a t-shirt decente e as calças de ganga que a “média” do grupo vestia são semelhantes às que usei em outras ocasiões em que ali entrei e às que a maioria dos clientes usa.
Por muito que pense nisso, não consigo encontrar outra explicação menos terrível: dos sete, dois eram pretos e um indiano.
Não sou assim tão hipócrita: já elogiei a ausência de “chungaria” em certos sítios. Mas também já entrei no Lux e garanto que preferia ver aquilo cheio de pretos, amarelos e peles vermelhas, bem ou mal vestidos, do que saber que, todas a noites, neste e noutros sítios tão supostamente cosmopolitas várias pessoas passam pela humilhação de ser excluídos só porque sim.
Muita gente se admira quando certos barris de pólvora explodem, como se tem verificado, ano após ano, com a população dos bairros sociais franceses a revoltar-se contra a restante sociedade. A mim, confesso, não me surpreende mesmo nada. Basta não estar demasiado embriagado com as bebidas caras e a música disparada pelas colunas do Lux e vir até à porta sentir o silêncio gelado para se compreender como cresce o ódio.
Sei que estou a escrever a quente e reconheço uma dose de ingenuidade no meu raciocónio. Mas ontem, quando um dos dois turistas (italianos?), também “barrados”, baixou os calções para que a porteira nórdica pudesse apreciar um bom rabo latino, eu, que nem costumo achar grande piada a coisas dessas, ri-me à gargalhada e com sinceridade.
O perturbante é que não sei se também não achava graça se, na mesma noite, os turistas, à semelhança dos jovens dos bairros socais franceses, tivessem, por exemplo, incendiado o carro da nórdica giraça ou do patrão dela.
sábado, 22 de agosto de 2009
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Miss Parlamento
segunda-feira, 9 de março de 2009
Um assunto de venda ou de morte
O Jornal de Notícias de hoje traz uma pequena brochura de vinte e poucas páginas sobre o sector funerário. Rituais fúnebres no mundo, entrevistas a cangalheiros e novidades sobre urnas ecológicas são alguns dos conteúdos que se podem encontrar na pequena brochura.
No canto inferior da capa, nas habituais letras minúsculas, pode ler-se: "Este guia faz parte integrante da Edição n.º 281 de 9 de Março de 2009 e não pode ser vendido separadamente".
Ainda bem que avisam. Já receava que houvesse um assalto às tabacarias, quiosques e estações de serviço não para comprar jornais mas sim a entusiasmante publicação "Agentes funerários. A caminho da desejada profissionalização".
No canto inferior da capa, nas habituais letras minúsculas, pode ler-se: "Este guia faz parte integrante da Edição n.º 281 de 9 de Março de 2009 e não pode ser vendido separadamente".
Ainda bem que avisam. Já receava que houvesse um assalto às tabacarias, quiosques e estações de serviço não para comprar jornais mas sim a entusiasmante publicação "Agentes funerários. A caminho da desejada profissionalização".
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Hey RC!
RC: a música chama-se Hey Ya! E é dos OutKast.
Shake it, shake it like a Polaroid Picture!
ps. nem mesmo a credibilidade de coelhinha coloca em causa uma memória de elefante!
Shake it, shake it like a Polaroid Picture!
ps. nem mesmo a credibilidade de coelhinha coloca em causa uma memória de elefante!
Pânico Verbal V
SG (ontem no cantinho de S.José - ou seria Sr.José?):
- O meu objectivo é um miúdo de quatro anos.
- O meu objectivo é um miúdo de quatro anos.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
O caminho para a (r)evolução

Sem ser um grande filme (Sam Mendes é, de facto, sobrevalorizado pelo seu Beleza Americana) Revolutionary Road é, no entanto, uma espantosa teia de representações, a começar pela "certeza de sempre" Kate Winslet (o Oscar fica-lhe tão bem), Leonardo DiCaprio e os dez minutos arrebatadores de Michael Shannon (o louco mais lúcido que habita aquele cantinho intocável e limpinho do Connecticut e da classe média dos anos 50). Uma corrente de ditos e não-ditos, de vontades contra vontades, de sonhos contra sonhos. Um espelho daquilo que queremos ser e cujo reflexo, talvez por inércia ou (pior) por medo, deixamos desvanecer.
Frank Wheeler - "All I know is that I want to feel things. Really feel them. How’s that for an ambition?"
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