segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A Bica dos vícios



Há quem não saiba começar o dia sem a sua bica. Há quem goste de ir à Bica do Sapato para impressionar a companhia e sue em bica com a conta. E há a noite de todos nós na Bica.

Amarela e corrosiva. Como o elevador. Como a urina impregnada na calçada, nas escadas. Quente. A multidão de cabelos, casacos e copos aquece a rampa, fazendo ferver os carris que clamam por uso numa ebulição silenciosa mas urgente.

A vertigem da descida chama-nos. Passeiam-se as bijutarias, os vinis e os copos numa dança lenta e sensual. Um olhar electrizante na passagem. Perigoso. Anónimo. Viciante.

Sentamo-nos. Dizemos disparates. Rimos. Vivemos. O rio, ao fundo, refresca o ar quente que circula entre voyeurs, cantores, artistas. O ar que circula entre nós.

Que esse ar não nos falte. Que o amarelo seja sempre vivo, não caindo num branco sujo e desbotado. Que esses cabelos, casacos e copos se misturem com os nossos cabelos, casacos e copos até estes ficarem brancos, justos e foscos. Que sejamos os carris da nossa locomotiva, composta de tão diferentes carruagens. Que nunca nos falte força nas pernas para subir e descer. Que o nosso olhar seja sempre uma descoberta.

Obrigada por já serem o meu vício.

domingo, 16 de setembro de 2007

Um brinde ao amor

Há textos assim. Que lemos de uma só vez, embalados pela doçura das palavras e pela nossa imaginação. Que nos fazem chegar ao fim e acreditar. Na menina Cila, na certeza de que aceitou a proposta, e num amor que perdura. Um convite para uma vida a dois. Simples e sincero. Que nos confronta com a partilha. Daquilo que somos, sentimos e desejamos. Que não esconde projectos e se expõe sem medos. Que sorri ao futuro e torna fácil o que aprendemos a complicar. Que vale a pena ler, reler e, quem sabe, copiar. Aqui fica o link: Menina Cilinha, de Carlos Romero http://enrolanareia.blogspot.com/2007/03/menina-cilinha-venho-por-este-meio_17.html

Óbidos

Lembro-me da primeira vez que fui a Óbidos como se fosse hoje. Estava no 10º ano e foi a última visita de estudo desse ano lectivo. Tinha 15 anos, os meus pais acabavam de se divorciar e eu própria acabava de me divorciar da antiga vida familiar que tinha, passando a viver num ambiente muito mais saudável. Para além disso, estava apaixonada.

Óbidos tem a magia de um conto de fadas. Ainda hoje, volvidos sete anos, volvido o divórcio de pais que resultou em duas novas famílias, volvido o fim da antiga paixão, Óbidos continua a ser um lugar especial que insisto em visitar. Visito não para me lembrar dos meus 15 anos, das palavras que deixámos com as pedras. Visito porque é um dos meus locais de eleição. Acho que já o era mesmo antes de conhecer…

Recordo-me do choque do branco das casas nos meus olhos escuros, do odor intenso das rosas e daquelas flores lilases que vimos quando fugimos do resto da turma. Lembro-me da casa guardada pelo leão de pedra, dos puxadores em forma de animais, da ginjinha em cada porta, das tuas conversas nervosas e escorregadias como a calçada depois da chuva que nos limpou a alma naquela corrida desenfreada para o autocarro.

Nessa tarde senti-me uma verdadeira princesa dos contos de fadas. Não tanto pelas coisas parvas que dizias mas porque acreditava piamente que já tinha vivido ali noutra vida, que aquele era o meu mundo. Tu rias, claro. Mas, ainda hoje, sinto a mesma sensação de dejá-vu quando passo a arcada principal. Parece que sempre conheci cada pedra de calçada, cada esconderijo, cada entrada para a muralha do castelo.

“Daqui a uns anos voltamos. Tu ficas na varanda enquanto eu declamo aquela cantiga que canta os desamores de quem não consegue alcançar a sua dama inacessível”. Sabes bem que eu nunca gostei de alturas…

sábado, 15 de setembro de 2007

Travessa dos Amores

Queria escrever algo original mas parece que a inspiração hoje tirou folga.

Remexendo em papéis antigos, encontrei esta passagem que em tempos guardei para uma partilha que ficou esquecida na gaveta.

Alguém viu?

«Numa aldeia de pescadores, chamada Burgau, virada a Sul no Barlavento Algarvio, existe uma Travessa, mas não é uma Travessa qualquer, é uma travessa onde apenas passa uma pessoa de cada vez. É de tal maneira estreita que se a pessoa for muito forte fisicamente terá dificuldade em passar. A história conta que nesta aldeia os namorados passavam a travessa da única forma possível, ao mesmo tempo mas de lado e frente a frente até se tocarem com os narizes, até se tocarem com os lábios. Esta travessa existe de facto e a tradição continua viva, viva como um amor frágil, forte como o tempo a passar. A Travessa dos Amores é única de tão estreita que é. As pessoas continuam a passar naquela rua estreita e curta, às vezes dois a dois, com o amor e um beijo pelo meio, e o tempo necessário para amar.»

Nuno Leal Ângelo, in CAIS #111

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O retrato

Estávamos de pé, eu e a assessora, meando uma conversa preguiçosa, quando o Presidente chegou. De imediato procurei nele a pose magistral, honrada e digna do grande retrato nos Paços do Concelho.
Não a encontrei. Mão na cintura escorregadia da assessora, o que faz aqui este bocado de tecido, todo eu sou à-vontade. A voz partia para agudos, talvez na esperança de se sintonizar com ela, tão feminina e jovem.
Chega mais gente e são palmadinhas nas costas, risos que soam a conluios e clientelismos. Ele é ex-Presidente mas recusa o prefixo: "Sou presidente em título". Mostra saudade dos seus tempos, das pessoas que já não são as suas. Lança palpites, atira provocações, ri-se de uns e com outros. Mais do que real, é banal. Um homem que faz rugas quando se ri, como os outros. Que chama "querida" a todas, sejam rabos de saia, poucos, ou rabos de calça, muitos. Para os homens tem trivialidades, simpatias umas vezes sentidas e outras vezes palermas. Faz tudo isto sem nunca tirar a mão da cintura deslizante da assessora. Corrijo: Faz tudo isto e liberta-a, os meus olhos é que ficam a guardá-la.
O retrato na parede branca dos Paços do Concelho não é tolo, nem simpático, nem diz que é presidente em título. É o Presidente. É pesado, sério, altivo. Falecido sem ser morto.
Não é, não pode ser, a mesma pessoa que ainda tem a mão na cintura perigosa da assessora.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Táxi


Há poucos dias, tive uma das viagens de táxi mais hilariantes da minha vida. Não pelo facto de ter tomado o táxi quase no local da suposta chegada (que tinha uma barreira arquitectónica a impedir), não por ter sido pago por uma açoriana fora de série que perguntava por telemóvel, mesmo estando no táxi da frente, se o nosso taxista era “fixe”. Não pelo facto de ter partilhado a viagem com duas amigas fantásticas. Também não foi pelo facto de, minutos antes, ter discutido a existência do chocolate preferido da minha infância, de nome Táxi, com a açoriana. Não. Isso apenas faria da viagem mais uma de tantas outras viagens normais entre o grupo de pessoas em questão.

O senhor taxista que nos conduziu até à Praça Luís de Camões, de 50 e poucos anos, 30 e tantos de profissão, do “clube que vocês não gostam”, sotaque nortenho ainda bem entranhado, revelou-se um contador de senhoras histórias daquelas com muitas “senhoras” à mistura e risadas a acompanhar. As histórias, essas, ficaram dentro do Mercedes beije de trazer e levar pelo alcatrão lisboeta.

Este pequeno apontamento serve de pretexto para lembrar que, este mês, Lisboa é a capital do táxi, esse grande invento do homem, essa “bóia de salvação” movida a combustível, preta ou beije, tantas vezes solicitada por nós, náufragos da noite, do álcool ou simplesmente dos atrasos matinais.

Durante este mês, acontecem muitas actividades ligadas ao imaginário do táxi: ciclo de cinema do táxi, exposições, competição de curtas-metragens, contadores de histórias (o senhor taxista deve participar), concurso de talentos e muitas outras acções.

Tudo isto pode ser descoberto em http://www.festivaltaxi2007.com/.

Boa viagem.

p.s. ele existiu…mas aqui a embalagem era azul. Que saudades...


Hapiness...is not included

Permitam-me discordar do título deste post. Que apenas foi escolhido por ser o nome do álbum em questão. Hapiness...is not included é o mais recente disco de Veronica Mortensen, depois de Pieces in a Puzzle (vou espreitá-lo um destes dias).
Deparei-me com a cantora e compositora dinamarquesa numa visita recente à Fnac. Procurava algo de novo nos ritmos quentes do jazz e decici trazê-la para casa. Não me arrependi. Há uma musicalidade especial em Veronica. Uma voz quente, ao mesmo tempo forte e doce, que nos envolve, parecendo contrariar as origens nórdicas.
Uma viagem aos grandes nomes do jazz e às influências afro-americanas de Aretha Franklin, Billie Holiday ou Erykah Badu. Sim, é mais isso. Mas há mais: este disco lembra-me alguma coisa que ainda não sei dizer. Talvez por isso o tenha trazido sem hesitar.
A maior parte dos temas são escritos pela cantora e pelo marido, Niels HP, mas também há interpretações de Paul Simon, Tom Waits, James Taylor e The Beatles. Destas, gosto especialmente de In my Life e Broken Bycicles.
A voz sempre acompanhada do piano, o baixo e a bateria, misturando jazz, pop e rock. Beyond the rainbow é a música que inaugura este disco. Lembra-me a curiosidade de uma criança que, depois da chuva, espera o sol, e trepa o céu em busca de um novo arco-íris. "Take a look beyond the rainbow/You may find another world". Será?