terça-feira, 15 de julho de 2008

O passado é inútil como um trapo

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor…,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.

Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

(Eugénio de Andrade)

domingo, 29 de junho de 2008

Educação musical

A minha irmã anda-me a educar musicalmente. Apresentou-me Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e Kings of Convenience com relativo sucesso, apesar do meu pouco entusiasmo.
Mas tenho de destacar uma música na qual me viciei. Oiço já há meses e nunca me farto da atmosfera absurdamente dançável e dançante, para além de uma letra fantástica que gostava de ter sido eu a escrever. O videoclip é engraçado, apesar de ter pouco a ver com a atmosfera que atribuo à música.
Chama-se "I'd rather dance with you" e não tem nada a ver com o resto do álbum dos Simon & Garfunkel, perdão, dos Kings of Convenience.
Ah, para que conste, a minha irmã tem 17 anos.

Ó gente da minha terra

Agora que a Mariza tem um novo cd (suportado numa máquina promocional como poucas tem havido em Portugal, diga-se), deixo aqui a recordação de um momento que vi ao vivo.
Sou o menos nacionalista dos portugueses, mas esta coisa ainda me arrepia de cada vez que revejo ou reoiço.

http://www.youtube.com/watch?v=TeOhPR_0x8E

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Os palhaços não faltam, estão é nos sítios errados

Um estudo económico-social de uma investigadora do ISEG e de outra do Instituto de Apoio à Criança concluiu que as crianças de Loures são as mais infelizes.
O presidente da Câmara de Loures respondeu assim:

http://www.loures.tv/gca/index.php?id=185

(Recomendo-vos que não se dêem ao trabalho de ver os outros vídeos da página, mas o de Carlos Teixeira vale muito a pena.)

Este senhor está à frente dos destinos políticos de 200 mil pessoas. Assim vai o poder autárquico em Portugal.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Porque sim


"Amigos

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto
e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor,
eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos,
enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor,
que tivessem morrido todos os meus amores,
mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos
e o quanto minha vida depende de suas existências ...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade,
não posso lhes dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,
embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro,
noto que eles não tem noção de como me são necessários,
de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital,
porque eles fazem parte do mundo que eu,
tremulamente, construí,
e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.

E me envergonho, porque essa minha prece é,
em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos,
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer ...

Se alguma coisa me consome e me envelhece
é que a roda furiosa da vida
não me permite ter sempre ao meu lado,
morando comigo, andando comigo,
falando comigo, vivendo comigo,
todos os meus amigos, e, principalmente,
os que só desconfiam
- ou talvez nunca vão saber -
que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os".

Vinicius de Moraes

domingo, 22 de junho de 2008

Anabolizante


Definição de 'anabolizante' pelo meu pai:

"Substância que nos faz ficar com um corpo parecido com o da Ana Bola."

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A barriga da gente

Um grupo de jovens de uma escola estado-unidense fez um pacto de gravidez. Ninguém sabe bem quando, onde, como nem porquê, mas o que é certo é que há 17 grávidas. Ao que parece, os pais foram escolhidos mais ou menos ao acaso e a fava até saiu a um sem-abrigo.
Fiquei completamente fascinado com esta estória. É para tentar decifrar um acontecimento destes que vale a pena ser um animal racional.