terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A Outra Margem


Às vezes saímos da sala de cinema muito impressionados com um filme que achamos fantástico. Outras vezes, é só passados dias ou semanas que realmente nos apercebemos de como a estória nos tocou. Mais raro é receber um filme como uma facada que, depois da dor inicial, deixa uma cicatriz que vai permanecendo para lá do que julgávamos razoável.

"A Outra Margem", de Luís Filipe Rocha, é sem dúvida um dos melhores filmes que já vi. As interpretações dos actores são muito consistentes, nalguns casos brilhantes, e a fotografia transforma as margens do Tâmega, em Amarante, num idílio que apetece visitar. (Que grande cartão de visita para a cidade!)

Quanto à estória, está resumida numa sinopse disponível no sítio da película desta forma:


"Um travesti que perdeu o gosto pela vida é confrontado com a alegria de viver
de um adolescente com síndrome de Down."

O fantástico protagonista Filipe Duarte, cujo trabalho numas quantas telenovelas eu desvalorizava até agora, foi convidado a explicar sobre o que tratava o filme, em directo para a Praça da Alegria. Atrapalhado, balbuciou "Trata de muita coisa..."

Sim, "A Outra Margem" trata de quase tudo. Tolerância e preconceito, à cabeça. Mas também amor, respeito, medo, afecto, angústia, sonho.

Um filme a não perder. Por ninguém.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Olhos de boneca

Quando era pequena, o meu irmão dizia que eu tinha olhos de boneca.

Não por serem olhos de uma rara cor ou formato - os meus olhos castanhos são vulgaríssimos, do mais "made in Portugal" que possa existir - mas por fazerem um som semelhante aos olhos de uma boneca que ainda hoje guardo comigo.

Antigamente, quase todas as vezes que esfregava os olhos - por sono ou choro - os meus olhos (a pálpebra, vá) faziam um som curioso igual ao som emitido pelo abrir e fechar de olhos da tal boneca.

Durante anos não ouvi este som...até hoje. E com este som veio a boneca, os olhos de boneca, o meu irmão, a nossa infância. Tanta coisa.

Não tive música no mp3 falecido mas, por momentos, voltei a ser a menina dos olhos de boneca. E soube tão bem.

Sony II

Pois é, parece que o mp3 não gostou da reforma antecipada.

Hoje reatei a relação e levei-o comigo. Quis o conforto da escolha musical e a previsibilidade da ordem das faixas. Premi o ON e a música começou a soluçar...até calar. Mudei a pilha (prevenida como sou, levo sempre uma nova comigo) mas percebi que o problema não é da carga mas sim do corpo.

Alguém oferece um mp3 no Natal?

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Anoristeria



Finalmente percebi. Depois de anos de incompreensão, pasmo e, em certos momentos, até revolta, percebi a histeria feminina da magreza. Folheei por acaso uma revista feminina, chamada Happy Woman ou qualquer coisa nesta linha. Para um homem, é difícil encontrar interesse numa publicação deste tipo. Há um ou outro artigo menos específico, mas as longas dissertações sobre moda e cosméticos ultrapassam a masculina pachorra. Claro que nos podemos sempre entreter a decifrar as preocupações e preferências do sexo oposto. (As dicas sexuais e sentimentais são as mais curiosas.) Tirando isto, o que faz um homem com uma revista feminina? Entretém-se a olhar para as omnipresentes fotografias de mulheres mais ou menos vestidas.
E aqui é que está o meu ponto. Que tipo de mulher aparece neste tipo de publicação? Uma mulher magérrima, sem carne, com a abundante maquilhagem disfarçando o ar doente. Uma mulher-cabide, assexuada, expositor de metro e oitenta. Enfim, uma carga de ossos assustadora.
O problema está nos efeitos a longo prazo. Se a um “primeiro” contacto senti desilusão, para não dizer aversão, face a esta mulher-esqueleto, admito que o contacto permanente com esta imagem possa ir fazendo dela a norma e o desejável. Na cabeça da leitora que vê esta imagem a acompanhar o artigo sobre a mulher independente, feliz e moderna, começa a ganhar força a associação entre as duas coisas. E de nada adianta negarmos os efeitos destas influências, uma vez que os estudos sociológicos, psicológicos e outros “lógicos” os evidenciam. O aumento da anorexia, da bulimia e de variadas ansiedades e frustrações em relação ao corpo também o mostram. Há uma força social superior a cada uma das mulheres à qual é muito difícil fugir.
Por isso, mulheres, deixo-vos um apelo. Se querem viver angustiadas com o corpo, não olhem para as vossas revistas. Sigam as nossas. A mulher não se quer gorda mas quer-se abundante (não escolhi a palavra ao acaso). Viva a mulher carnal, onde se possa agarrar sem medo de partir. A Monica Bellucci faz bem à vista, a Kate Moss ainda nos vaza um olho com um braço ou uma perna.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Eu tenho dois amores...




David Fonseca numa versão mais colorida.

Tiago Bettencourt saído da casca.

Confesso. Gosto muito dos dois.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Estávamos quase a entrar em Dezembro

A ti, M., porque também tenho saudades tuas


Estávamos quase a entrar em Dezembro, mas a noite até nem estava fria. Já escurecera há algum tempo quando nos fomos reunindo à porta do Cenoura do Rio e tudo era diferente do costume. Para trás ficava o convívio nos intervalos das aulas. Agora éramos nós por nós. Estávamos soltos, sem pastas nem horas. Livres, por isso desprotegidos.
Entrámos calmamente no restaurante e sentámo-nos. Seguimos a rigorosa etiqueta das proximidades. Junto a mim só podias estar tu. Não me recordo se estavas ao meu lado ou à minha frente. Não importa, tudo é a minha beira.
Veio a comida. Um quadrado ordeiro de bacalhau com natas. Tomate, alface e cenoura numa salada bem comportada. Tudo limpo, tudo sereno.
Tão leves quanto a comida corriam as conversas. As banalidades eram mais do que isso. Eram partilha e descoberta. Dos assuntos esqueci-me mas lembro-me do bem-estar naquela noite. O entendimento crescia de cada vez que alguém levava comida à boca.
Então veio a sangria. Não lhe tocaste porque ias conduzir. Guardo ainda a pequena mágoa privada de nunca termos sincronizado bebedeiras. Quem sabe, um dia. Naquele dia tinhas de levar-nos para casa. Por isso, enchi só o meu copo. Uma, duas, demasiadas vezes e perdi a conta.
Quando as caloiras quiseram fazer uma brincadeira, engelhei o nariz, porque me parecia que a tentativa ia ser frustrada, a nossa faculdade não era dada a essas coisas e muito menos o nosso curso, mas vocês lá me convenceram e participei na coisa. A coisa resultou mesmo e nessa altura, nessa noite em que já éramos finalistas fomos caloiros e padrinhos e doutores e eternamente estudantes por uma noite, e eu pensava no que poderia ter sido o nosso curso e só este pensamento ensombrava a alegria. Não sei se foi o álcool ou o entusiasmo do momento mas quando o restaurante se transformou, surpreendente, em pista de dança, já eu estava mais do que preparado para a música, e ela não tardou e era rápida e ritmada e alegre e sensual e tão violenta que o chão por baixo dos nossos pés parecia poder cair a qualquer altura. Dançámos, perdemos vergonhas e todos pudemos ver como se transfigurava a Tété na pista, e quando tocava um êxito o teu desdém contrastava com a alegria com que a Tété trocava o recato habitual por um rebolanço quase sensual, mas davas o braço a torcer e entravas na onda, era euforia, era uma união que nunca tínhamos vivido e ao mesmo tempo a individualidade completa, radical, para que vos quero, basta-me esta música.
Então vieram as bebidas brancas e apagaram o passado e o futuro. Talvez um Sminorff Ice para começar e mais qualquer coisa já não sei, mas olha quem ele é como raio veio parar aqui que coincidência encontrarmo-nos aqui quando eu nunca cá tinha vindo sequer, a música está muito alto não dá para falarmos não faz mal, está a dar-me um copo e eu pasmado obrigado a bebida é sempre bem-vinda, mas tu não me deixas beber, pode ter qualquer coisa aí dentro gritas, eu rio-me da ideia ridícula, ele é meu amigo, e bebo, e danço e danço e danço os outros já não vêem o meu corpo e ele só me serve para dançar e não parar não controlo os meus pés o chão foge-me e só espero conseguir fugir do chão, e Tété olha este som é um espectáculo, e a música bate-me atinge-me entranha-se a música sou eu, e aqueles dois estão-se a comer ali no canto a gaja até é lá da faculdade a gaja roça nele promete-lhe um strip e assedia-o até não poder mais, nunca te imaginei tão maluca, quem te mandou prometer sexo ao som das Pussycat Dolls doravante serás uma delas nem que seja na alcunha, e danço danço e o último Smirnoff e as escadas para o wc estão cada vez mais íngremes e bailarinas, das nossas colegas algumas já desmobilizam mas nós ficamos mais uma hora ou duas números para quê o que interessa é a música, esta é a noite este é o momento esta é a memória tirem-se fotografias recorde-se a música e que tudo perdure para além da noite a noite em que saímos pela primeira vez a noite em que conheci Small Town a noite que não podemos esquecer que devíamos repetir que deveria ter existido esta noite em que nós somos a música.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Narcisismos


Alguém me explica porque é que 90% das pessoas que têm cães de estimação, optam por versões caninas de si próprias?